5.5.16

Tenho um fascínio por edifícios abandonados...


Desde que me lembro de mim que tenho um fascínio por edifícios abandonados. São os vestígios de vidas passadas, com uma beleza tão própria e hipnotizante, que me prendem o olhar e fazem com que a história se repita a cada novo local que descubro: o desejo de poder conhecer o seu interior que se traduz, invariavelmente, na resignação de ter de admirá-lo apenas do lado de fora. Mas é o suficiente para que a imaginação comece a trabalhar...

Gosto de apreciar estes edifícios e de tentar imaginar a vida que tiveram em tempos e durante quanto tempo. Quem ali viveu, como eram as suas vidas, as suas profissões, se haveria boa vizinhança, se seriam pessoas felizes. Imagino que foram habitados numa época em que o dia-a-dia era passado com menos recursos e num ritmo mais lento e tranquilo, em que havia poucos carros na cidade, em que as famílias eram numerosas e as mães não trabalhavam, ficando a cuidar dos filhos e da casa. Tento imaginar como se vestiam, como seria a decoração das casas ou que pratos confeccionavam. Imagino todo o contraste entre o passado e os dias de hoje e registo mentalmente pormenores tão banais que distinguem as épocas como a ausência de elevadores em prédios de 4 e 5 andares.

Gosto dos prédios grandes onde havia espaço para viver muita gente, daqueles com portões laterais que conduziam a jardins ou a pátios, e aprecio todos os pormenores como as varandas com grades em ferro trabalhado ou os antigos ornamentos que desapareceram das construções recentes.
Fascinam-me as janelas entreabertas, outrora ocupadas por adultos e crianças a espreitar a vida cá fora, que revelam agora na penumbra os últimos vestígios das famílias que por ali passaram. Cortinas, móveis, candeeiros, azulejos, pequenos detalhes deixados para trás. Tento imaginar o porquê dos moradores terem desaparecido, um a um... Se por necessidade, mudança ou velhice. Porque antigamente as casas, tal como tudo o resto, eram para a vida. Tento imaginar o porquê dos edifícios [alguns tão ricos do ponto de vista arquitectónico] não terem sido conservados, deixando-os chegar ao ponto do abandono e da ruína. Por fim, e depois de uma imaginação galopante, resigno-me ao facto de cada prédio ter a sua própria história que guarda apenas para si.

Tenho consciência que há sempre o reverso da medalha. Esteticamente não são um bom cartão de visita e representam inúmeros perigos para quem por ali passa. Mas ainda assim, não consigo ignorar este fascínio...

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